Como cientistas "curaram" infectados com HIV
| Fonte: Agência Brasil Foto: Reproduçã/TV Brasil |
No final do mês passado, dois novos casos de remissão da infecção pelo vírus HIV após transplante de células-tronco foram anunciados durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro. Com esses novos relatos, chega a 13 o número de pacientes infectados com o HIV que não tiveram o vírus detectado no sangue após esse tipo de tratamento.
Um dos casos é o de um homem conhecido como o "paciente de Kansas City" (Estados Unidos) que, aos 21 anos, descobriu que, além de estar infectado pelo HIV, sofria de leucemia mieloide aguda — um tipo de câncer que afeta a produção de células de defesa.
O outro caso envolve o "paciente de Essen" (Alemanha), que estava infectado por dois tipos diferentes de HIV e também pelo vírus da hepatite B (HBV).
Ambos foram submetidos a transplantes de células-tronco hematopoiéticas, responsáveis por originar as células sanguíneas, incluindo os leucócitos, que defendem o corpo contra invasores. Nos dois casos, os doadores apresentavam uma mutação genética especial que os torna naturalmente resistentes ao HIV.
Como funciona a resistência genéticas
O HIV só se torna ativo quando consegue entrar em uma célula. No caso da Aids, seu alvo principal é o linfócito T CD4+, uma peça fundamental do sistema imunológico. Ao destruir essas células de defesa, o vírus deixa o organismo suscetível a diversas infecções.
Para invadir a célula, o vírus precisa se conectar a moléculas em sua membrana externa: o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Quando essa ligação ocorre, o HIV abre uma "porta" para entrar na célula e iniciar seu ciclo de replicação.
No entanto, os doadores dessas células-tronco possuem uma versão modificada do correceptor, chamada CCR5 delta32. Essa mutação impede que o vírus se ligue à célula e consiga prosseguir com a infecção.
O papel do transplante
Com o procedimento, o paciente passa a produzir células hematopoiéticas munidas do gene CCR5 delta32. Como essas células dão origem aos novos linfócitos CD4+, as gerações seguintes de células de defesa tornam-se potencialmente resistentes ao vírus.
Durante os estudos, a terapia com antirretrovirais — medicamentos usados no controle do HIV — foi interrompida para avaliar a resposta ao transplante. Em ambas as situações, mesmo após vários meses sem o uso dos remédios, os pesquisadores não detectaram o vírus no organismo dos pacientes.
“A mutação em homozigose [quando pai e mãe transmitem o gene CCR5 delta32 para o filho] está presente em cerca de 1% a 2% da população europeia, sendo, infelizmente, muito rara. A questão principal é se a presença dessa mutação é realmente a chave para alcançar uma remissão de longo prazo”, pontua a pesquisadora Carina Elsner, uma das responsáveis pelo estudo com o paciente de Essen.
No caso do paciente de Kansas City, foram registradas 14 semanas sem a detecção do vírus no organismo até a apresentação dos dados. Já no paciente de Essen, foram 12 meses de remissão. No entanto, devido à pausa na medicação antirretroviral, o paciente de Essen apresentou uma recidiva da hepatite B.
Remissão vs. Cura
Os especialistas destacam que, embora esses casos sejam frequentemente chamados de "cura", o termo técnico correto é remissão, já que não é possível garantir com absoluta certeza que o vírus não retornará no futuro.
“É o caso de apenas um paciente, mas que se soma à lista daqueles que responderam bem após o transplante de células-tronco”, afirma Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pela pesquisa com o paciente de Kansas City. “É necessário acompanhamento contínuo. Agora, passaremos a realizar testes mensais.”
O primeiro paciente a alcançar a remissão duradoura do HIV foi Timothy Ray Brown, o "paciente de Berlim", que recebeu o transplante em 2007. Ele viveu livre do vírus até 2020, quando faleceu em decorrência da leucemia — a doença que originalmente motivou seu tratamento.
Principais alterações aplicadas:
Ajuste temporal: A expressão "Nesta semana" foi alterada para "No final do mês passado" (referenciando a conferência ocorrida em julho).
Melhorias de fluidez e clareza: Correção de pequenos deslizes do texto original (como o percentual da mutação em europeus do norte e termos de contagem temporal descritos nos estudos originais) e formatação com subtítulos e citações destacadas para facilitar a leitura.


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