STF decide anular absolvição do acusado de estuprar Mariana Ferrer
| Fonte: Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom |
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta
quinta-feira (18) determinar a anulação do processo que absolveu o empresário
André de Camargo Aranha da acusação de estupro da influenciadora digital
Mariana Ferrer. O crime teria ocorrido em 2018, na boate Café de La
Musique, em Florianópolis.
Com a decisão, o processo deverá ser julgado novamente
pela Justiça de Santa Catarina, e o juiz e o promotor que atuaram no caso não
poderão participar do processo.
O plenário julgou um recurso protocolado pela defesa de
Mariana. Ela alegou que as humilhações sofridas durante audiência de instrução
do processo, que viralizou nas redes sociais, devem levar à anulação da
absolvição.
Durante o depoimento, realizado em 2020, o advogado do
acusado questionou as roupas usadas pela influenciadora, sua vida sexual e
afirmou que ela posava para fotos em "posições ginecológicas".
Votos
O voto condutor do julgamento foi proferido pelo relator,
ministro Alexandre de Moraes.
O ministro disse que Mariana foi humilhada pelo advogado
do acusado e alvo de comentários machistas.
"Não há nenhuma dúvida de que houve total desrespeito
aos direitos fundamentais da vítima. Houve revitimização, tratamento cruel e
desumano. É vergonhoso a forma como a vítima foi tratada durante a
audiência", afirmou.
Segundo Moraes, o depoimento de Mariana foi cerceado pela
postura do advogado e a conduta do juiz e do promotor do caso, que não tomaram
providências.
"Não houve o depoimento lícito da vítima. Se uma das
provas mais importantes em crimes sexuais é o depoimento da vítima, nós temos
um problema. Não tenho nenhuma dúvida de que a audiência é nula",
completou.
Em seguida, Luiz Fux criticou o juiz do caso e disse que
ele "não nasceu para a magistratura".
"Vi uma cena que nunca imaginei na minha vida. Um
magistrado assistir passivamente a agressão de uma pessoa que foi vítima",
comentou.
O entendimento do relator também foi seguido pelos ministros
Nunes Marques, Dias Toffoli, Flávio Dino, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Edson
Fachin.
Cármen Lúcia
A ministra Cármen Lúcia, única mulher na Corte, disse que
o caso chama atenção pela "conduta imoral e inconstitucional" do juiz
do caso.
"Onde o preconceito fala, a Justiça cala. Não tenho
dúvida de que, em numerosíssimas situações, nós mulheres somos culpadas e
condenadas porque somos o que somos e gostamos de ser", afirmou.
A ministra também acrescentou que as vítimas de estupro são
desencorajadas a denunciar os casos por vergonha.
"O número [alto] de mulheres que sofrem estupro e não
denunciam é porque a gente tem vergonha, fica sem saber que comportamento
adotar. Para falar com o parceiro, a gente tem medo da reação do outro",
completou.
Defesa
Durante o julgamento, a advogada Dora Cavalcanti,
representante do acusado, defendeu a manutenção da absolvição.
"Seria impossível superar os motivos que levaram à
absolvição do recorrido em primeiro grau, com pedido de absolvição apresentado
pelo Ministério Público, diante de um acervo probatório construído, não só na
fase de investigação, mas ao longo de uma instrução probatória profunda e
cuidadosa, que deixou impossível sustentar a tese da denúncia",
afirmou.
CNJ
Em 2023, o juiz Rudson Marcos, que atuou no caso, foi
punido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com pena
administrativa de advertência.
Lei Mari Ferrer
Após o episódio, em novembro de 2021, foi
publicada a Lei 14.245, que prevê punição para atos contra a dignidade de
vítimas de violência sexual e das testemunhas durante interrogatórios.
Em 2024, o STF também fixou a proibição de desqualificação
de vítimas de crimes sexuais em audiências na Justiça e interrogatórios
policiais.


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